Por Camila Mendes, Mtb nº: 74627/SP.

Encontro promovido pelo Sindicato abordou os impactos do luto entre profissionais da saúde e integra a ação “As Mãos Que Cuidam Merecem Cuidados!”
O luto não segue protocolos, não respeita horários e não termina quando o trabalhador bate o cartão e deixa o local de trabalho. Para profissionais da saúde, acostumados a conviver diariamente com situações de sofrimento e perda, reconhecer a própria dor pode ser ainda mais difícil.
Foi para abrir espaço para essa reflexão que o SUEESSOR – Sindicato Único dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Osasco e Região promoveu, na última quinta-feira (21), no período noturno, o encontro “Luto e saudade: aprendendo a viver com a ausência”, com trabalhadores do SAMEB (Serviço de Assistência Médica em Barueri), atualmente administrado pela Irmandade Santa Casa de Misericórdia.
A atividade foi conduzida pelo psicólogo Dr. Gabriel Souza, e contou com a participação de Kátia Maria de Oliveira, assessora de Sindicalização do SUEESSOR, representando a entidade no encontro.
A iniciativa surgiu a partir de uma solicitação das gestoras de Recursos Humanos do SAMEB, Débora Silva e Andressa Rocha, com apoio da administração da unidade, após a morte recente de um jovem trabalhador vítima de um acidente. Ele exercia suas atividades profissionais justamente no período noturno.
Diante da perda, surgiu uma necessidade que muitas vezes fica em segundo plano nos ambientes de trabalho: permitir que aqueles que ficaram possam falar sobre o que sentem.
QUANDO O TRABALHADOR TAMBÉM PRECISA SER CUIDADO
Em uma área marcada pela responsabilidade de cuidar do outro, falar sobre o sofrimento de quem trabalha na saúde ainda é um desafio.
O profissional pode estar acostumado a acolher pacientes e familiares diante de diagnósticos difíceis, emergências e mortes. Mas, quando a perda atinge alguém próximo, a lógica muda. O trabalhador deixa de estar apenas na posição de quem cuida e passa também a precisar de acolhimento. Foi esse o propósito do encontro no SAMEB.
A discussão sobre o luto buscou oferecer aos trabalhadores um espaço de escuta e reflexão, sem transformar a dor em algo que precise ser rapidamente superado.
Luto não é fraqueza. É um processo. E reconhecer esse processo dentro do ambiente de trabalho também é uma forma de prevenção em saúde mental.
UMA AÇÃO QUE NASCEU EM 2016 E CONTINUA SE TRANSFORMANDO
O encontro faz parte do projeto “As Mãos Que Cuidam Merecem Cuidados!”, criado em novembro de 2016 por Noêmia Telles de Oliveira, ex-presidente e atual tesoureira do SUEESSOR.
A proposta surgiu justamente da percepção de que os profissionais responsáveis por cuidar da população também precisavam de atenção, informação e espaços de acolhimento.
Desde então, a iniciativa passou por hospitais, clínicas e laboratórios, assumindo diferentes formatos. As primeiras ações contavam, entre outras atividades, com apresentações teatrais e danças. Atualmente, o projeto é desenvolvido também por meio de palestras, encontros e rodas de conversa, conduzidos por profissionais da área de psicologia.
O conteúdo não segue uma fórmula fechada. Cada instituição apresenta suas demandas e, a partir delas, são definidos os temas a serem trabalhados.
DA PREVENÇÃO AO ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA
Ao longo dos anos, a ação incorporou discussões relacionadas a campanhas como Janeiro Branco, Agosto Lilás, Setembro Amarelo, Outubro Rosa, Novembro Azul e Dezembro Vermelho.
Mas a proposta também avançou para questões que afetam diretamente o cotidiano dos trabalhadores. Entre os assuntos que vêm ganhando espaço estão a violência doméstica contra a mulher e as atualizações da NR-1, incluindo a importância de olhar para os fatores psicossociais presentes nas relações e nos ambientes de trabalho.
A violência doméstica, especialmente, exige atenção porque seus efeitos não terminam dentro de casa. Ela pode comprometer a saúde física e emocional da vítima, sua segurança, sua autonomia e sua própria permanência no mercado de trabalho.
Casos recentes da técnica de enfermagem Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, encontrada pela polícia em Goiás após ser vítima de violência, e da dentista Giullia Falcão, de 27 anos, são exemplos que ajudam a dimensionar a gravidade do problema.
Para além das estatísticas, existe uma questão fundamental: quantas mulheres, entre elas, profissionais da saúde, convivem diariamente com situações de violência sem conseguir falar sobre elas?
É nesse espaço que ações de informação e escuta podem fazer diferença. Uma palestra ou uma roda de conversa não substitui as medidas legais, os serviços especializados ou as políticas públicas necessárias para enfrentar a violência. Mas pode ser o primeiro passo para que uma trabalhadora reconheça uma situação de violência, procure ajuda e compreenda que não está sozinha.
PARA O SUEESSOR, CUIDAR TAMBÉM FAZ PARTE DA LUTA SINDICAL
O vice-presidente do SUEESSOR, Juarez Henrique de Paulo, destaca que a diversidade de temas trabalhados pelo projeto acompanha as transformações vividas pelos próprios trabalhadores.
“O trabalhador da saúde está diariamente na linha de frente do cuidado. Por isso, não podemos falar de saúde e segurança sem olhar para a saúde emocional de quem está cuidando. O projeto nasceu com esse propósito e foi crescendo justamente porque as demandas também mudaram. Hoje falamos de luto, violência contra a mulher, saúde mental, prevenção e tantos outros assuntos porque o trabalhador precisa saber que também existe um espaço para ele ser ouvido e cuidado.”
Para o dirigente, essa mudança representa uma ampliação importante da própria atuação sindical.
“O sindicato não está presente apenas quando existe uma negociação coletiva ou uma questão trabalhista a ser resolvida. Também precisamos estar onde estão as necessidades humanas dos trabalhadores. Essa é uma ação que considero um divisor de águas porque coloca o cuidado com quem cuida no centro da discussão.”
UMA INICIATIVA CONSTRUÍDA COM DIÁLOGO
A realização do encontro no SAMEB também demonstra a importância da iniciativa das próprias instituições.
O SUEESSOR parabeniza as gestoras Débora Silva e Andressa Rocha, do Recursos Humanos, pela sensibilidade de buscar apoio diante de uma situação de luto e por entenderem que os trabalhadores precisavam de um espaço de acolhimento.
A entidade também agradece à administração do SAMEB pelo apoio à realização da atividade e aos trabalhadores que participaram do encontro.
Em situações de perda, não existem palavras capazes de apagar a ausência. Mas existem atitudes capazes de evitar que a dor seja enfrentada em silêncio.
E essa talvez seja uma das principais mensagens deixadas pelo encontro: quem passa a vida cuidando de outras pessoas também precisa ter onde encontrar cuidado.
“AS MÃOS QUE CUIDAM MERECEM CUIDADOS!” ESTÁ DISPONÍVEL PARA TODAS AS INSTITUIÇÕES
Hospitais, clínicas e laboratórios interessados em levar a iniciativa aos seus trabalhadores podem solicitar o agendamento da ação “As Mãos Que Cuidam Merecem Cuidados!”.
As atividades são gratuitas e podem ser adaptadas de acordo com a realidade e as necessidades de cada instituição. O atendimento é realizado mediante agendamento antecipado.
Informações e agendamento:
[email protected]
(11) 99780-4889
SUEESSOR, cuidando de quem cuida!


