Por Juarez Henrique de Paulo
Vice-presidente do Sindicato Único dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Osasco e Região – SUEESSOR

A democracia não termina quando as urnas são fechadas. Ela precisa ser respeitada também dentro das empresas, dos ambientes de saúde e de todos os locais de trabalho. Infelizmente, o encerramento das eleições de 2026 trouxe à tona uma prática que deveria estar definitivamente superada em nosso país: a perseguição a trabalhadores em razão de suas escolhas políticas.
As denúncias de assédio eleitoral e as manifestações incentivando a demissão de trabalhadores por terem votado em determinado candidato são inaceitáveis. Representam uma afronta à legislação, à liberdade individual e aos princípios de uma sociedade democrática.
É preciso compreender que o empregador contrata a capacidade profissional, a dedicação e o trabalho de seus empregados. Não contrata suas consciências, suas convicções políticas nem o direito de decidir os rumos do país.
Nenhum empresário, diretor ou gestor tem autoridade para determinar em quem um trabalhador deve votar, muito menos para transformar divergências políticas em motivo de perseguição ou desemprego.
E há um aspecto especialmente grave nessa situação. A relação entre patrão e trabalhador não ocorre em condições de igualdade econômica. De um lado, está quem tem o poder de contratar e dispensar. Do outro, quem depende do salário para pagar suas contas, alimentar os filhos e sustentar a família. Quando uma ameaça política parte de quem detém esse poder, deixa de ser uma simples divergência de opiniões e passa a representar uma forma de intimidação.
O medo de perder o emprego jamais pode ser utilizado para controlar a liberdade de um cidadão.
Na área da saúde, essa discussão merece atenção especial. Estamos falando de profissionais que enfrentam jornadas exaustivas, plantões noturnos, finais de semana de trabalho e uma rotina de enormes responsabilidades. São trabalhadores que dedicam suas vidas ao cuidado de outras pessoas e que já convivem com pressões suficientes no exercício de suas funções.
Não podemos aceitar que, além de todas essas dificuldades, tenham de conviver com o receio de sofrer represálias porque suas opiniões políticas não coincidem com as de seus superiores. Um ambiente de saúde deve ser de respeito, responsabilidade e cuidado, jamais de imposição ideológica.
Evidentemente, empresários, gestores e trabalhadores têm o direito de defender seus candidatos, criticar governos e participar do debate político. A liberdade de expressão pertence a todos. O que não se admite é utilizar uma posição de autoridade para exigir obediência política.
A Constituição Federal protege a liberdade de consciência e de convicção política, e a legislação brasileira proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho. Uma dispensa motivada por perseguição política pode ser questionada judicialmente e gerar consequências para o empregador.
Mas, para mim, essa discussão ultrapassa os limites da legislação. Trata-se de uma questão de dignidade humana. Quando um trabalhador é ameaçado por sua escolha eleitoral, a mensagem transmitida é profundamente perversa: para preservar o emprego, ele precisaria abrir mão da própria liberdade. E nenhuma sociedade que se pretende democrática pode conviver naturalmente com isso.
É justamente por essa razão que o movimento sindical precisa se posicionar com firmeza. A defesa do voto livre também é uma forma de defender os direitos trabalhistas. Afinal, de que vale lutar por melhores salários, jornadas dignas e condições de trabalho se o trabalhador não puder exercer sua cidadania sem medo?
O sindicato existe para defender trabalhadores, independentemente de suas preferências eleitorais. Ninguém pode ter seus direitos condicionados ao candidato que escolheu, ao partido com o qual simpatiza ou às opiniões que manifesta legitimamente.
Como vice-presidente do SUEESSOR, reafirmo meu repúdio a qualquer tentativa de intimidação, perseguição ou discriminação política nos locais de trabalho. Esse posicionamento está em sintonia com a defesa da liberdade e da dignidade dos trabalhadores manifestada e publicada em nota pelas centrais sindicais e por outras entidades representativas das diversas categorias profissionais.
Quero também deixar uma orientação clara aos trabalhadores de nossa categoria: ninguém deve enfrentar sozinho uma situação de assédio ou perseguição política no ambiente de trabalho. Quem sofrer ameaças de demissão, constrangimentos, mudanças de escala como forma de punição ou qualquer outra represália motivada por suas convicções políticas deve procurar o Sindicato e denunciar a situação. É importante, sempre que possível, preservar mensagens, documentos e outros elementos que possam comprovar os fatos. O nosso departamento jurídico está à disposição para acolher essas denúncias, orientar os profissionais e adotar as medidas cabíveis, com responsabilidade e respeito à confidencialidade. O medo não pode silenciar quem trabalha, e a liberdade de escolha jamais pode custar o emprego de alguém.
As eleições passam, os governos mudam e as divergências políticas continuam fazendo parte da vida democrática. O que não pode mudar é o respeito aos direitos fundamentais de cada cidadão.
O voto pertence ao cidadão, não ao empregador. E enquanto houver um único trabalhador ameaçado por exercer sua liberdade política, haverá uma razão legítima para a luta sindical.
Confira o conteúdo da nota de repúdio da Centrais Sindicais